Professores e alunos são amigos até que a nota os separe

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Que tal uma leitura sobre a avaliação escolar? Fazer da avaliação um instrumento de dominação, e da pauta um rifle pedagógico, é assassinar a própria missão da educação.

 

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Entre os estudantes existe uma famosa máxima que tenta traduzir a perspectiva da avaliação pela ótica discente. Ela diz o seguinte: “Professor e aluno são amigos até que a nota os separe”. De fato existe um fetiche em torno da nota que é assustador. Muitas vezes a relação mercantilista que é criada em torno deste número acaba poluindo em muito as praticas pedagógicas.

A nota é um termômetro de caráter burocrático que balizará a promoção ou retenção do estudante, mas antes de se converter em número a avaliação é o instrumento dialético que lançará luz na caminhada acadêmica de educadores e educandos, possibilitando a auto-imagem da construção do saber. É uma pena que este momento tão rico esteja nublado por traumas, armas e torturas.

Fazer da avaliação um instrumento de dominação, e da pauta um rifle pedagógico, é assassinar a própria missão da educação. Tal qual fazer da nota um instrumento fisiológico na construção de empatia e carisma é cometer um suicídio profissional, pois na verdade os estudantes não querem professores “bonzinhos”, querem professores competentes que assegurem a construção do saber em bases sólidas, mesmo que esta obra seja a custo de muito esforço.

O ato de estudar ainda é visto como o pedágio que o estudante precisa pagar para obter a tão sonhada nota, que muitas vezes será o passaporte para a conquista de bens materiais prometidos pelos pais. Estimular a conquista de “bons” resultados como meio para se conquistar bens materiais é educar para o consumo, e atestar que tudo (e todos) na vida têm um preço. E acima de qualquer outra coisa é uma ação de corrupção ativa. Desta maneira, como esperar colher ética no pomar da sociedade?

Será que a nota 10 na escola é sempre um 10 na vida? Trabalhando com ensino fundamental em escolas de periferia aprendi que o reverso desta máxima é exposto todos os dias no mundo do trabalho, pois muitos dos meus alunos que colecionavam “zeros” em matemática realizavam operações matemáticas complexas em velocidade muito rápida ao venderem amendoins e picolés nos terminais rodoviários da Grande Vitória. Quem na verdade merecia o zero?

A nota não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. Como base nesta informação podemos (re)planejar nossas práticas academicas e estabelecer novos objetivos. O resultado de uma avaliação é como um laudo médico de um processo de construção de conhecimento. Mas infelizmente muita gente ainda confunde com atestado de óbito ou nota promissória. Tal qual na estatística, os números não mentem, mas podem ajudar a contar mentiras. E, de mentira em mentira, vamos “educando” nossos estudantes sob o olhar cúmplice daqueles que cultuam o 10 como alvo.

Fabio Flores é geógrafo especialista em Formação Docente.

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