O dia que eu assumi para minha mãe

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O complexo momento em que um filho precisa fazer para a mãe uma revelação tão íntima. Angústias bilaterais aparando arestas de sonhos e frustrações. 

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Era uma manhã de domingo. Meus irmãos tinham ido andar de skate. Meu pai já estava no bar aguardando o jogo do Flamengo. Jogo este que só começaria as 17h. Na sala imensa e silenciosa restavam apenas eu, minha mãe e Celso Portiolli, que por mais que tentasse não conseguia deixar meu domingo legal.

Uma angústia me consumia. Eu tinha que aproveitar aquele momento para revelar a minha mãe algo que guardava em segredo dentro de mim. Algo que ela não gostaria de ouvir, mas eu precisava de sua benção para viver em paz o meu destino. Aproveitei o intervalo comercial e toquei sua mão. Ela olhou para mim surpresa. Neste momento comecei a conversa que mudaria definitivamente minha vida.
_ Mãe…
_ O que foi, heim? Quando você fala é assim é para pedir alguma coisa.
_ Sim, mãe. É para pedir.
_ Fala. Quanto você está precisando?
_ Não. Não é dinheiro.
_ Então é o que?
_ É a sua benção.
_ Que mané benção, menino?
_ Mãe, eu preciso te contar uma coisa.
_ Ai, ai, heim?
_ Sério mãe. Preciso te falar algo sobre mim que ainda não sabe.
_ Já tô preocupada. Desembucha menino!
_ É que eu preciso que a senhora aceite minha opção. Ela certamente não é o que a senhora pensou para mim. Mas é a única forma que serei feliz.
_ Que mané opção? Fala logo infeliz!
_ Mãe, eu vou precisar muito do seu apoio. Talvez todo mundo nesta casa passe a me tratar diferente depois que eu assumir. A senhora é minha única esperança.
_ Fala logo. Já tá me dando um troço.
_ Então mãe…
_ Fala!!!
_ Mãe, eu quero ser professor.
_ Você tem certeza? É isso mesmo que você quer para sua vida? Ser vítima de preconceito e violência? Você sabe que as pessoas não respeitam quem faz esta opção.
_ Mãe, nem sei se é opção. Eu nasci assim. Meu desejo sempre foi ajudar as pessoas a serem melhores. Eu não sei estar no mundo de outra maneira.
_ Se é isto mesmo que deseja siga em frente. Peço apenas para não ser mais um. Seja o melhor que puder ser para você e para os outros. Com certeza não foi este o futuro que eu sonhei para um filho meu, mas vou aprender a amar você mesmo assim. Meu sonho era ter um filho advogado, engenheiro ou médico. Vou ter que aprender a conviver com sua opção. Sinceramente não sei o que eu vou dizer para minhas amigas quando elas perguntarem sobre a opção do meu filho…
_ Diga apenas que seu filho é um operário. Um operário na oficina do amanhã.

Fabio Flores é Pedagogo, Geógrafo, Especialista em Formação Docente, Humorista, Apresentador do programa Triálogo (Imagem TV/RCA), Comentarista e Redator do Programa Bom de Papo (TV Tribuna/SBT).

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