Mudaria o Natal ou mudei eu?

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Ao relembrar os dias de pequeno, quando no Natal eu ia dormir sonhando com os presentes que o Papai Noel deixaria embaixo da árvore de plástico da minha casa, não sinto nostalgia. Parece impossível recuperar as sensações da minha idade antiga. Atualmente, com os sagrados frêmitos da exaltação religiosa afogados nas águas gélidas do cálculo egoísta, a data se tornou mais uma agente de artifícios capazes de gerar comportamentos consumistas.

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Hoje eu só consigo olhar para as residências e comércios decorados com árvores de plástico e neve de espuma ou algodão e me lembrar do jornal cuja edição especial de compras de Natal está repleta de dicas que prometem fazer a minha noite ainda mais feliz. Eu imagino os presentes comprados no cartão de crédito e a felicidade gustativa dos glutões que vão exercer a vocação gastronômica nas casas de familiares e amigos. Empanturrados de panetone, amêndoas, nozes, castanhas, figos, passas, rabanadas, peru, tender e farofa, homenageamos o menino que nasceu numa manjedoura.

O leitor me releve e não reprove tanto dizer. Mas enquanto os filhos de Deus refestelam-se com alimentos que só aparecem uma vez por ano e trocam presentes, expressando a autêntica felicidade das plantas, a massa invisível vive na mais terrível barbárie. Não posso deixar de pensar que nesta noite o Papai Noel, como sempre, esquecerá de visitar os lares de 10 milhões de brasileiros, gente que vive sem ter como viver. Mudaria o Natal ou mudei eu?

Não é demasiado afirmar que de uns tempos para cá a celebração do nascimento de Jesus Cristo mudou. Aliás, segundo historiadores, é provável que ele mesmo nunca tenha tido uma festa de aniversário, pois não era um costume de sua cultura. E como ninguém sabe ao certo o dia e o ano em que o filho do homem nasceu, escolheram uma data pagã que já era celebrada pelos romanos.

A velha noite amiga se repete anualmente desde 350 d.C., quando o Papa Júlio I decretou que o nascimento de Jesus deveria ser comemorado no dia 25 de Dezembro, alterando o calendário litúrgico cristão. A estratégia visava facilitar a conversão dos povos não-cristãos que comemoravam o nascimento anual do Deus Sol no solstício de inverno. A festa, celebrada no coração do inverno para provocar o renascimento da luz, era farta em comida e regada a vinho e sangue. Os espaços eram iluminados por tochas e decorados com árvores enfeitadas. E até hoje as melhores famílias agem como se o espírito de Natal estivesse naquilo que comemos ou bebemos.

Feliz Natal!

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