Diário de um Imigrante em Dublin – Cap: 13 – Torresmada e as Vizinhas

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A primeira festa no ap e o dia que a gente conheceu elas.

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Era consenso entre todos da República: era hora de fazermos uma festa. Estávamos estudando há algumas semanas, sendo assim, nossa rede de amizades já era maior. Já tínhamos condição de convidar um bom número de pessoas, e o principal, essas pessoas irem, ao contrário do que aconteceu no meu aniversário.

Estávamos todos ansiosos para de certa forma estrear a grande e confortável sala que tínhamos, entretanto não queríamos fazer uma festa qualquer, ela tinha que ter algo diferente. Discutimos algumas ideias e decidimos fazer a “Torresmada”. Escolhemos esse tema por dois motivos. Primeiro: ainda havia um pouco de cachaça. Segundo: como os convidados seriam em grande maioria brasileiros, nada melhor do que oferecer um tira-gosto que não existe na Irlanda, que todos gostam, sentem saudade e o melhor, combina com a purinha.

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O detalhe é que não sabíamos preparar o torresmo, mas nada que internet, Google e amigos não ajudassem. Era um pouco engraçada a reação do açougueiro irlandês ao comprarmos barriga de porco. Eu ficava imaginando se os pensamentos dele eram algo do tipo “coitado desses imigrantes, mal tem dinheiro pra comprar uma carne boa…” ou algo como “cambada de brasileiros malucos e seus hábitos esquisitos…”

Tivemos de testar a receita umas três vezes para finalmente pegarmos o ponto. Foi difícil ter que comer torresmo e beber cerveja (tem que ter um acompanhamento, lógico) durante alguns dias, mas fizemos o sacrifício. Tão logo estávamos satisfeitos com o nosso torresmo marcamos a data oficial da festa.

Como bons espanhóis à toas que somos, passamos os dias seguintes na sala (com as janelas abertas) conversando e ouvindo música. Certo dia aconteceu algo, que não poderíamos imaginar no momento, mas que iria mudar radicalmente a história de todos nós na Irlanda.

Era normal um de nós as vezes fazer alguma gracinha com as mulheres que passavam pela nossa janela. Nesse fatídico dia estávamos todos na sala quando um grupo de brasileiras passou rapidamente em frente ao nosso apartamento.

Elas estavam muito animadas, conversando alto, rindo e devidamente arrumadas. Mal elas passaram rolou aqueles cinco segundos de silêncio enquanto olhávamos uns pros outros. Um de nós não aguentou, pulou na janela, olhou em direção às meninas e gritou:

– Ei!

(Uma delas prontamente olha pra trás e toda simpática responde.)

– Ei!

– Vocês estão indo pra onde?

– Pra Dicey’s.

– Vou dar um pulo lá também.

– Maneiro, te encontro lá.

Meu amigo desce da janela rindo e fala “galera, um grupo de brasileiras indo pra Dicey’s, vamos pra lá agora!”

A Dicey’s é um dos pubs prediletos dos brasileiros em Dublin. Toda terça-feira há uma promoção: qualquer pint por 2 euros* (normalmente o preço varia entre 5 e 6 euros). Como fica numa região bem central e perto de várias escolas de inglês, toda terça ela fica completamente lotada.

Terça na Dicey's
Terça na Dicey’s

No final das contas apenas dois de nós foram pra Dicey’s. Apesar dos incentivos “mulheres e cerveja”, eu e outro amigo estávamos numa pindaíba danada e achamos melhor ficar em casa.

No dia seguinte fico sabendo que o meu amigo que pulou na janela usou uma tática simples e honesta para achar as meninas. Mal ele entrou na balada, perguntou pra primeira brasileira que viu: “olá, vocês são as meninas que passaram em frente da minha janela pouco tempo atrás? Ah não? Ok, obrigado.” Virou pra outra e perguntou “olá, vocês são as meninas que passaram em frente da minha janela pouco tempo atrás? Ah não? Ok, obrigado”. Depois de fazer a mesma coisa com umas 20 pessoas, finalmente elas foram encontradas.

Risos, conversas, troca de números de celular. Apesar da óbvia segunda intenção em todos nós, não rolou nada (nesse primeiro momento pelo menos. rs). Não querendo, mas já sendo piegas, mal sabíamos que começava ali uma, literalmente, grande amizade. Ali começava a nossa relação com “As Vizinhas”, algo que de fato teve influência no rumo dos acontecimentos em Dublin, e que vocês vão entender melhor nos próximos capítulos.

Cheers

PS: Ahh, a Torresmada? Foi foda! Muita gente, cachaça, torresmo, música e tudo aquilo que uma festa boa tem que ter. Ponto.

* Este era o preço entre 2011 e 2013. Não sei quanto está atualmente.

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