Diário de um Imigrante em Dublin – Cap: 02 – O Primeiro Dia

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A primeira Guinness a gente nunca esquece. Mas como atravessar a rua sim.Look right or die

Saímos do aeroporto e pegamos um ônibus em direção ao centro da cidade. Contava para meus amigos como tinha sido a viagem, mas eu ainda estava levemente anestesiado. Eu olhava pela janela aquele lugar com uma arquitetura tão diferente e a ficha começava de fato a cair. Estava frio, mas não tanto como eu imaginei. Olhei pra cima, vi o céu completamente nublado e pensei “acho que consigo me acostumar com o frio, mas esse tempo cinza vai ser foda…”

Deixamos minha mala na acomodação que eu ficaria nos primeiros dias e fomos dar uma volta pela cidade. Logo percebi que eu teria dificuldade para aprender a andar em Dublin. Os prédios, casas e ruas são muito parecidas, tornando difícil memorizar qualquer ponto de referência.

Outro complicador: os nomes das ruas mudam de uma hora pra outra. É como se a Avenida Paulista mudasse de nome no meio dela para “Avenida Tom Jobim”, por exemplo. Existem ruas em Dublin com três ou quatro nomes, sendo que cada nome corresponde a uma parte dessa mesma rua. É realmente muito estranho e confuso. Eu nunca aceitaria o emprego de taxista.

Algo que eu também achei muito curioso é a dificuldade que eu tive de atravessar as ruas. Como a Irlanda é uma ex-colônia britânica os carros possuem o volante do lado direito, fazendo com que o trânsito tenha as mãos trocadas em relação ao Brasil. Em praticamente todos os lugares há escrito no chão para onde você deve olhar ao atravessar, mas mesmo assim é complicado. É impressionante como nosso cérebro condiciona você a olhar para uma direção. Depois de uma vida inteira praticando o mesmo ato é difícil “trocar o botão”. Ou seja, mesmo que esteja escrito que eu devo olhar para a direita, parece que se eu também não olhar para a esquerda, algum carro vai vir daquele lado e me matar. Esquisito, eu sei, mas acontecia.

Também foi diferente perceber que eu estava de fato numa cidade globalizada. De um modo geral no Brasil vemos pelas ruas somente brasileiros e em Dublin eu via pessoas dos mais diversos lugares. Com certeza o mais impactante foi topar com os muçulmanos. Definitivamente eu não estava acostumado a encontrar pessoas usando burca.

Já era noite há muito tempo nesse meu primeiro dia de Irlanda quando finalmente fomos para um pub. Eu estava cansado da viagem e ninguém estava muito no clima, mas eu não poderia ir pra casa sem tomar uma e brindar esse início da realização do meu sonho. Combinamos de tomar uma pint (copo de 500 ml) e no dia seguinte sair e “festar” de fato.

Pedi uma Guinness, é claro. Eu nunca tinha provado e nada mais natural do que chegar na Irlanda e pedir uma. Achei uma merda.

Fui empurrando a Guinness e o álcool ajudou para que a sensação anestésica de “cair a ficha” voltasse. Eu dava uma golada, olhava em volta e pensava “caramba, não acredito que finalmente estou tomando uma cerveja aqui.” Era uma sensação gostosa olhar com cara de bobo para as pessoas ao redor enquanto eu tomava aquele terrível líquido preto.

O pub não estava cheio. Estávamos terminando nossas cervejas, nos preparando para ir embora, quando começou a tocar a música “Firework” da Katy Perry. Três belas irlandesas que estavam próximas da gente começaram a cantar a música com toda a força, não se importando com quem estivesse ao redor e como se fosse a última coisa que elas fariam na vida. Olhei, ri, dei o último gole e pensei “acho que vou gostar muito desse lugar.”

Cheers.

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