As pessoas eram mais tolerantes no passado?

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O mundo está mais politicamente correto? Não ! O mundo está mais interativo. A intolerância ganhou voz…
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Lugar comum atualmente é o comentário: “No passado as pessoas eram mais tolerantes. Hoje em dia reclamam de tudo. Tudo é politicamente incorreto”. Esta afirmação na verdade revela uma incompreensão da diferença entre os tempos históricos. O que não existiam no passado eram os meios para expressar a reclamação.

Num mundo de hiperconectividade e múltiplas plataformas de interação temos a ampliação exponencial das possibilidades de expressão. Alguns canais do Youtube possuem audiências mais expressivas que emissoras de TV aberta. Muitos blogs são mais lidos que os jornais impressos. O usuário das redes sociais muitas vezes esquece que o conteúdo que gera não será apenas lido pelos seus amigos, mas também, pelos amigos dos amigos. Numa progressão geométrica de dimensões incalculáveis.

Todo bônus tem um ônus. O preço da ampliação das possibilidades de expressão é a abertura, em mesma escala, das formas de expressar repudia a um conteúdo compartilhado. Nas décadas de 1970 e 80, nos episódios de “Os Trapalhões”, o personagem Mussum era chamado de macaco e urubu. Costuma-se dizer que ninguém reclamava desta piada e que o Brasil era mais tolerante por compreender que era apenas uma brincadeira. Mas será que esta afirmativa é verdadeira?

Os Trapalhões foram recordistas de audiência. Chegavam a marcar seis vezes mais audiência que o segundo colocado no mesmo horário. No entanto entre o emissor e o receptor não existia uma via de interatividade que assegurasse uma eficiente maneira de revelar a forma como a mensagem era recebida. Portanto, a pessoa que por ventura não gostasse de ver a imagem da negritude ser associada a macaco não teria meios de expressar sua indignação.

Hoje as redes sociais configuraram uma segunda tela. O indivíduo divide sua atenção entre a tela da televisão e a tela do smartphone. Repercute o que vê em tempo real. Esta interação é uma base de dados construída gratuitamente para a lapidação dos conteúdos dos emissores. Ao invés de analisarmos como um retrocesso precisamos reconhecer que a democracia que nos permite dizer nos obriga também a ouvir.

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