O “Red Scare” no Brasil

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David G. Borges

Vocês já ouviram falar no “Red Scare”? Sabiam que é importante para nós, brasileiros, sabermos o que foi isso?

Nos EUA, em dois momentos distintos da história (o primeiro entre 1919 e 1921 e o segundo entre 1947 e 1954) houve um pânico generalizado a respeito do que eles consideravam a “ameaça vermelha”, resultando em uma paranóia coletiva a respeito de qualquer coisa que se assemelhasse, ainda que muito remotamente, a socialismo, comunismo ou anarquismo. Chamaram a isso de “red scare”, que pode ser traduzido grosseiramente como “susto vermelho”.

David G. Borges

A primeira onda de medo foi motivada pela revolução russa de 1917, além de agitações de grupos anarquistas na Europa como um todo. Isso se somou ao hiper-nacionalismo da Primeira Guerra Mundial, e em pouco tempo surgiram acusações inventadas, mídia delirante, retórica política exagerada (e baseada em paranóia), buscas e acusações ilegais, prisões arbitrárias, supressão da liberdade de expressão (e de reunião), inserção de agentes de governo em organizações populares (como sindicatos, por exemplo) e deportação de inúmeras pessoas que eram “suspeitas” por não se adequarem completamente ao modo de vida da época. Também houve uma onda de racismo contra imigrantes que tentavam entrar nos EUA, e alguns de seus reflexos são sentidos até hoje. Essa primeira onda terminou quando alguns políticos americanos declararam publicamente que previam uma manifestação maciça no dia 1° de Maio de 1920, com atentados à bomba, assassinatos e tudo o que eles mais temiam. No dia, nada ocorreu – e as alucinações do governo se tornaram motivo de chacota na imprensa.

A segunda onda de pânico foi causada devido à Guerra Fria. A adesão de diversos países ao socialismo e um vazamento de informações sigilosas do governo alimentaram a idéia de que existiam espiões estrangeiros por toda parte. Os cidadãos passaram a temer e a odiar o partido comunista dos EUA. Todos os estrangeiros em território americano passaram a ser vistos como espiões ou possíveis guerrilheiros infiltrados pela União Soviética. Novamente sucederam-se abusos de poder por parte do estado, e algumas leis diminuindo liberdades civis foram aprovadas. Também ocorreu uma onda de anti-intelectualismo, com pessoas instruídas (como professores, por exemplo) sendo consideradas “elementos de doutrinação ideológica” ou “subversivos”, sendo vigiados de perto e, em muitos casos, acusados de crimes que nunca cometeram.

Agora analisem a sociedade brasileira atual. Façam autocrítica. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

E de onde vem o medo dos brasileiros?

Estou especulando, mas eu diria que começou pelo mesmo motivo: mudanças no cenário internacional. Nos últimos anos vimos alterações políticas em todos os países da América Latina, com a esquerda ganhando muita força e se opondo à hegemonia cultural e econômica norte-americana e européia. Devido à crise de 2008 EUA e União Européia perderam boa dose de seu poder, e agora competem com a China e a Rússia pela dominância mundial – dois países com histórico de serem “vermelhos”. Também é válido citar o movimento Occupy, com tênue tendência anarquista, e a “Primavera Árabe” – que recebeu este nome em alusão à “Primavera das Nações” de 1848. Aqui no Brasil houve o imenso ganho de poder do PT, um partido que no passado já foi de uma esquerda bem mais radical e que ainda conserva a estrela vermelha como símbolo.

Resultado: qualquer coisa que não esteja atrelada à manutenção do status quo é vista como “subversão”, e rotulam-se rapidamente as pessoas divergentes como “socialistas”, “comunistas”, “anarquistas”, “vândalos”, “baderneiros”, e assim sucessivamente. Jornalistas, colunistas, artistas, líderes religiosos, vlogueiros e diversas outras figuras midiáticas auxiliam a espalhar a paranóia, e muitos trabalham ativamente em prol de uma “americanização” da cultura brasileira. Partidos políticos se aproveitam do clima de tensão para atacar seus adversários e angariar votos. E uma guerra de desinformação se instaurou, potencializada pelo enorme talento que as redes sociais possuem em dar credibilidade a informações falsas.

Isso leva, obviamente, a um crescente maniqueísmo político. Quem não está “conosco” está “contra nós” – seja lá de que lado você esteja. A população em geral, ignorante em política e em história devido a uma péssima educação formal – e informal também – tende a acreditar que só existem dois extremos: “coxinha” e “petralha”, como se não existissem nuances no espectro político. Nuances essas que existem tanto no pensamento de direita, quanto no de esquerda.

É necessário largar o maniqueísmo político, analisar a conjuntura e, principalmente, pensar antes de se abrir a boca (ou usar o teclado) para dizer qualquer coisa sobre política. Acima de tudo, é necessário instruir-se. Como pode o governo do Partido dos Trabalhadores ser considerado “comunista” se defende a iniciativa privada e gerou grandes lucros não só aos bancos, mas também aos maiores latifundiários do país? Como pode o PSDB ser considerado totalmente liberal no campo econômico se foi durante o governo FHC que surgiram medidas de redistribuição de riqueza (tímidas, é verdade, mas existiram), se o partido carrega a social-democracia no nome, e se seu candidato defendeu a manutenção de programas como o “bolsa-família”? Como pode o terceiro candidato majoritário ser considerado uma “alternativa” se sempre esteve atrelado a oligopólios e carrega forte herança do coronelismo?

É preciso estudarmos decentemente – e não apenas empurrando com a barriga – um mínimo de história, filosofia política, ciência política, economia e direito, sob a pena de momentos sombrios do passado se repetirem. É no mínimo bizarro que o brasileiro esteja retomando agora comportamentos derivados de uma visão de mundo que se criou em outro país durante a Guerra Fria, motivada principalmente pela ignorância e pela paranóia dos cidadãos daquele país.

Recomendo a todos que antes de usarem em seus discursos cotidianos os termos “liberalismo” (ou “neoliberalismo”), “fascismo” (ou “ditadura”), “comunismo” e “socialismo”, entre outros, pensem se são capazes de dar uma definição clara do significado destes termos. Caso não consigam, sejam mais cautelosos e procurem mais informação. O mau uso de rótulos leva ao aproveitamento ideológico deles, em uma sociedade em que todos nós somos produtores de mídia – seja de forma proposital ou acidental. As consequências podem ser nefastas.

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