Raul Seixas e a morte de Deus

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O objetivo central deste ensaio,resumo de um capítulo do livro Raul Seixas: estudos interdisciplinares, é pensar a presença do problema filosófico da morte de Deus na obra de Raul Seixas tendo em vista o paralelo subterrâneo que se estabelece entre a ascendência intelectual de Aleister Crowley sobre o compositor brasileiro e a ascendência intelectual de Friedrich Nietzsche sobre o ocultista inglês.

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Nosso ponto de partida é a sentença “Onde eu tô não há sombra de Deus”,  verso da segunda estrofe do remake da canção “Eu sou egoísta” incluída no disco Metrô Linha 743 (1984). Esta frase lapidar é, como muitos outros versos do maluco beleza, tradução livre de um texto de Aleister Crowley: “I am alone: there is no God where I am” (Liber Al vel Legis, II, 23).

À primeira vista, a frase parece banal. Afinal, é bastante conhecido o agnosticismo de Raul Seixas. Considerando inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas metafísicos e religiosos, ele afirmou que “Deus é o que me falta para compreender aquilo que eu não compreendo”, como podemos escutar em vinheta de Krig-Ha Bandolo! (1973).

Bem mais que mero agnosticismo ou simples descrença, a sentença “Onde eu tô não há sombra de Deus” remete ao problema filosófico da morte de Deus, conforme o anúncio inaugural feito por Nietzsche no §108 de A Gaia Ciência: “Novas lutas. – Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos – uma sombra imensa e terrível. Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada. – Quanto a nós – nós teremos que também vencer a sua sombra!”

A controversa afirmação de que “Deus está morto” significa que o homem moderno abandonou a crença num Deus garantidor da verdade e do sentido da vida e não pauta suas ações pelos valores genuinamente cristãos. O Deus cristão e a própria ideia de transcendência se tornaram indignos de crença. Há o ocaso da fonte divina dos valores que forneciam um sentido ao mundo.

 

Sem sombra de Deus

Como dar sentido à existência depois que ficou evidenciado o vazio da interpretação moral cristã? Raul Seixas não oferece uma resposta universal, porque, enquanto thelemita, ele insistiu no caminho individual, no caso dele o raulseixismo: “Acontece que minha linha agora é o egoísmo, ou raulseixismo. Tenho meus próprios valores, sou meu próprio país. Não sou melhor ou pior do que ninguém porque sou único”, afirmou Raul (entrevista a Carlos Caramez, 1975). É a isso que ele se refere na canção “Eu sou egoísta”, escrita em parceria com Marcelo Motta.

A canção original, lançada no LP Novo Aeon (1975), além de alguns pormenores, apresenta uma diferença crucial na letra: “Onde eu tô não há bicho-papão”, ao invés de “Onde eu tô não sombra de Deus”. Seja por opção estética ou para escapar à censura prévia, a presença do bicho-papão é significativa. Enquanto esse monstro imaginário é usado para se assustar as crianças, a figura do Deus-Pai que castiga é usada para assustar os adultos. Como já dizia o Eclesiastes, 5, 7: “Mesmo nos seus muitos sonhos, em todas as suas ilusões e em tudo o que disser, você deve temer a Deus”.

Em ambas as versões a expressividade da letra de “Eu sou Egoísta” é baseada em antíteses: sorte e morte, inferno e Deus, vinagre e vinho, mel e fel, guerra e paz. As palavras, explorando sonoridades que chamam à atenção o ouvinte, organizam-se de modo a formar a unidade conceitual da canção, que transmite os ensinamentos thelemitas de Crowley.

Quer saber mais? Colabore com a publicação do livro Raul Seixas: estudos interdisciplinares.

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