A proteção do Muiraquitã e o cubismo europeu visto de Manaus

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Por Rízzia Rocha

Nasci e vivi no sudeste durante grande parte da minha vida, mas hoje, por questões pessoais, moro em Manaus. Essa é minha primeira temporada no norte. Ainda não conheço a região muito bem, mas o pouco que conheci modificou meu modo de vida acostumado, principalmente, aos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Escrevo para contar uma das coisas que aprendi com a cidade de Manaus desde que cheguei.

manaus

 

Foto: Sarah Rangel

Foi numa dessas noites quentes tão comuns por aqui que conheci um lugar bem frequentado na cidade. Nele uma banda local se apresentava tocando carimbó. Ignorando o mormaço que deixa os corpos indolentes, vários casais dançavam ao som da música.  O lugar bastante conhecido se chamava Muiraquitã. Esse, como muitos sabem, é também o nome de um amuleto indígena, que, entre outras funções, é usado para proteção dos guerreiros. Geralmente, esse amuleto tem a forma de um batráquio (sapo, rã…) e é orginalmente esculpido em jade, por isso em suas versões feitas de madeira ou resina, ele é normalmente pintado em verde. (As rápidas explicações vão para aqueles que são, como eu, forasteiros nessa cidade).

Nesse dia vi a maioria das pessoas com um Muiraquitã no pescoço. Eu, ignorando o significado daquilo, perguntei a alguém sobre aquele sapo e ouvi a explicação. Imediatamente acabei me lembrando que eu também tinha um desses em casa e disse que eu havia comprado numa feira de artesanatos no centro, num sábado qualquer. Disse ainda que comprei sem conhecer a história, porque o que chamou a minha atenção foi a forma cubista do sapo.

Voltando para casa, pensei na bobagem do que eu disse. As expressões culturais indígenas da Amazônia não usam a perspectiva em sua maneira de produzir imagens da natureza. Sem falar que a existência do Muiraquitã é bem anterior a Pablo Picasso, conhecido precursor do cubismo! Mas essa história se complica ainda mais…

O desenvolvimento do cubismo foi fortemente influenciado pela visita de Picasso a uma exposição de objetos africanos logo no começo do século XX no Museu do Trocadero, na cidade de Paris. As formas geométricas das peças africanas deixaram Picasso bastante impressionado e, então, ele passou a pintar influenciado por essas formas. Em resumo, foi assim que teve início o movimento artístico que conhecemos como Cubismo. Mas essa história não traz novidade alguma. O que me espantou foi que eu soubesse sobre arte europeia e, por outro lado, não soubesse nada sobre as expressões da cultura indígena.

Além disso, há outro problema grave. Eu vi o Muiraquitã a partir de uma tradição cultural totalmente estanha a esse objeto. O que eu fiz foi tentar colocá-lo dentro de um modelo cultural e de uma história totalmente estrangeiras. Esse é um hábito perigoso.

Nós somos acostumados a criar molduras ou rótulos através dos quais somos ensinados a ver o outro e sua cultura. Um dos problemas de enxergar o mundo através dessa moldura é que isso retira os objetos de seu lugar de origem e lhes atribui um lugar estranho destruindo a força cultural que os produziu. Por exemplo, o que eu fiz quando disse que a forma do Muiraquitã era cubista. Eu dei ao muiraquitã outra história, apagando sua história original como quem passa corretivo sobre um erro feito no papel e depois escreve por cima.

Essa é uma ação perversa que furta os objetos culturais do outro. Pode parecer inocente dizer que a forma do Muiraquitã é cubista, mas se isso for repetido por algum tempo, as pessoas já não serão mais capazes de reconhecer o Muiraquitã como parte da cultura indígena e ele será visto como uma parte menor da história do cubismo ou outra história qualquer, mais ou menos como eu fiz.

O cubismo é uma história estrangeira importante e claro que fomos influenciados de várias maneiras e muitas vezes nem sabemos disso. Mas a pergunta que o muiraquitã me deixou foi essa: qual o limite entre a influência e o apagamento da nossa própria história?

 

Rizzia Rocha é doutoranda em Filosofia pela UFMG.

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