Pelo direito de chamar negro de macaco

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Torcedores do Grêmio mostraram no estádio o que pensa boa parte dos brasileiros: ‘Negro deve aceitar insulto como algo normal de nossa cultura’. O novo Senhor de Engenho é a ignorância da diversidade. 

gremistas racistas

A atitude de parte da torcida do Grêmio nos estádios diz muito sobre a visão do brasileiro sobre as questões raciais em nosso país. O negro que não aceita a opressão histórica é alvo de todo o tipo de insulto e passa de vítima a réu.

O racismo brasileiro, que contesta a existência do preconceito e nega ao negro até mesmo o direito de se sentir ofendido, obteve uma vitória expressiva na Arena do Grêmio, na noite desta quinta-feira 18 em Porto Alegre. Três semanas depois de Aranha ser chamado de “macaco” e “preto fedido”, o goleiro do Santos foi xingado de “viado” e “branca de neve”vaiado durante o aquecimento e também a cada vez que encostava na bola durante nova partida entre os dois clubes, desta vez pelo Campeonato Brasileiro. Foi uma clara demonstração por parte de muitos torcedores gremistas da “indignação” provocada pelo simples fato, vejamos só o tamanho do buraco, de ter denunciado o ato de racismo do qual foi vítima em 28 de agosto.

Como de costume, houve uma tentativa cínica de negar que as vaias a Aranha fossem uma crítica ao goleiro e, consequentemente, apoio ao ato de racismo anterior. Durante o jogo, vicejava nas redes sociais o argumento de “vaia ser normal no futebol”. Após a partida, essa tese foi encampada por dois repórteres ligados às Organizações Globo, um do SporTV e outro da RBS.

Chocante mesmo foi ver os repórteres sendo cínicos ao ponto de negarem que as vaias possuíam relação com o racismo. Numa patética encenação de imparcialidade questionam o goleiro sobre a possibilidade dele estar interpretando erroneamente a atitude dos torcedores. Numa demonstração inequívoca de falta de profissionalismo a repórter sai da entrevista rindo da cara de quem acabou de ser alvo de insultos por 90 minutos. Como podemos notar neste vídeo.

Por trás das vaias a Aranha e das perguntas feitas ao goleiro após o jogo está também a construção de uma falsa verdade, a de que o goleiro não foi vítima de um ato racista, mas culpado por fazer torcedores gremistas “perderem a cabeça” ao fazer cera durante o jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil. Defenderam essa tese, para ficar em dois exemplos,diretores do Grêmio, e Eduardo Bueno, também da SporTV. O último a fazê-lo foi Luiz Felipe Scolari, o artífice do 7 a 1, que comparou as denúncias de Aranha a uma esparrela.

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O caso envolvendo o goleiro do Santos e a torcida do Grêmio é mais um na lista da moralidade alternativa que vigora no futebol, mas é também emblemático como ferramenta de análise da sociedade brasileira. Quem acusa Aranha, e quem silencia diante da pressão sofrida pelo goleiro, de uma forma ou de outra fortalece a reação à busca pela igualdade, contribuindo de forma perversa para a tentativa de “colocar o negro em seu devido lugar”, invisível e subalterno, onde não incomode com suas reclamações insolentes sobre o “suposto” racismo. É uma postura simplesmente abjeta, que ignora décadas de luta e, como disse o próprio Aranha, a dor de muitas pessoas cujo sofrimento está na base das leis contra o racismo.

CONFIRA O ENDOSSO AO RACISMO MANIFESTADO NO TWITTER

RACISTAS

Parte do texto é inspirada na reportagem da Revista Carta Capital

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