Pai, obrigado por ter vindo

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Pai, sabe aquela apresentação do seu filho que não pôde ir por compromissos profissionais ou pessoais? Veja como ela pode ser importante para a vida dele.

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Pai, obrigado por ter vindo

Meu nome é Antonio, tenho 17 anos e hoje é um dia bem diferente em minha história. Pela primeira vez meu pai pôde estar presente em um evento que participo. É bem diferente vê-lo aqui. Cheguei a imaginar que ele jamais pudesse participar de algo relacionado as minhas atividades. A vida dele é muito corrida. Não possui tempo nem para ele mesmo. Como poderia dividir o escasso tempo comigo, né?

Ainda na pré-escola fiz minha primeira apresentação. Era um número de dança em que homenageávamos o Dia dos Pais. Dançamos aquela música do Fabio Júnior. Naquele dia meu pai não pôde ver a dancinha porque nesta época trabalhava no sábado. Depois ele viu o vídeo e disse que gostou muito, apenas achou a música um pouco brega. Ele prefere rock n´ roll.

Depois desta dancinha aconteceram tantas outras, mas ele trabalhava no sábado. Era impossível pra ele ir. Cheguei a pedir pra tia da escola mudar o dia só para ele ir. Demorou, mas consegui. Quando estava no quinto ano do Ensino Fundamental a direção da escola promoveu um festival de jovens talentos. Eu participei cantando numa banda que montei com meus amigos. Tocamos a música ‘Pais e Filhos’ da Legião Urbana. Meu pai sempre foi fã da Legião.

Quando disse pra ele que íamos tocar Legião foi surpreendente a reação dele. Ele ficou bem feliz. Disse que até que enfim eu estava me interessando por música boa. Prometeu que desta vez iria lá assistir meu show. Fiquei felizão. Mas dei azar. Justamente no dia da minha apresentação um cliente ficou até mais tarde com meu pai e ele não pode ir. A sorte é que com o dinheiro da comissão meu pai me deu uma guitarra de verdade. Era uma guitarra Fender. Ele disse que era igual a guitarra do Keith Richards.

Com a guitarra aprendi a compor. Aprendi a transformar sentimentos em canções. Sempre que eu terminava uma composição mostrava pro meu pai. Acho que para eu não ficar muito metido ele sempre era comedido nos elogios. No máximo dizia: “Tá boazinha, mas dá pra melhorar”. Meu pai sempre foi sábio. Muitos artistas morrem sufocados pelo ego. Ele queria me poupar disso. Mesmo assim sempre ele era o primeiro a ouvir minhas criações.

Aos 15 anos lançamos nosso primeiro CD. Nossa banda que já tinha algum sucesso na internet, mas precisava de um registro físico da obra. O lançamento do álbum foi marcado na boate mais frequentada pelo público Sub-17. Duas semanas antes do evento todos os ingressos já haviam sido vendidos. Tudo era motivo para comemorar. Queria poder comemorar com meu pai no backstage, mas ele é meio claustrofóbico. Não suporta ambientes fechados. No próximo CD vou lançar em um show aberto. Numa praia. Ele como bom surfista vai gostar da ideia.

Muito shows aconteceram. Muitos CDs foram vendidos. Muitas meninas nos acompanhando em turnês. Só faltava saber o que meu pai achava da minha performance ao vivo. Que ironia do destino, né? No primeiro evento que meu pai decide ir eu não posso tocar ao vivo para ele. Na verdade não posso sequer estar vivo. Não sei o que me trouxe para dentro deste caixão. Lembro que estava numa festa e que passei um pouco dos limites no pó. Na verdade nunca tive limites, em nada na minha vida. Tenho a impressão que desta vez fui além da conta.

É triste vê-lo em meu evento e eu aqui paradão sem poder fazer nada que o agrade. Ele chora e me pede perdão, quando na verdade eu é que deveria estar me desculpando por não ter tido tempo de mostrar a última música que fiz. Talvez este seja o maior público que já tive. Que sorte de meu pai estar aqui e hoje pra ver este sucesso.

Fabio Flores é Geógrafo, Pedagogo, Especialista em Formação Docente, Apresentador do programa Triálogo e Humorista.

 

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