A luta pela água em São Paulo

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Enquanto os ricos tomam banho de piscina, os pobres ficam sem água nas torneiras. 

O PIG - sabesp falta água seca são paulo alckmin

Eu não sou de São Paulo e apesar de ter amigos na cidade, que já visitei diversas vezes ao longo dos anos, escrevo sem o conhecimento empírico do cotidiano de quem sofre atualmente com a falta de água. Eu avalio a situação a partir do que observo em comentários de redes sociais, jornais e blogs. E me atrevo a escrever porque ainda não vi ninguém apresentar com a devida contundência a minha hipótese interpretativa: o racionamento do precioso líquido divide a população paulista em dois campos bem distintos, diferenciados socialmente por suas situações e funções, resultando em segregação social e luta de classes.

Após o primeiro turno das eleições, na qual os paulistas reelegeram o governador Geraldo Alckmin, soubemos que superiores orientaram a Superintendência do Abastecimento de Água do Estado de São Paulo (Sabesp) a não alertar a população sobre falta de água. “’Cidadão, economize água’. Isso tinha de estar reiteradamente na mídia, mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa. Mas é um erro”, disse a presidente da estatal, Dilma Pena.

Não faltaram críticas contundentes, como a do jornalista Fernando Brito, para quem a eleição fez com que Alckmin agisse com uma criminosa imprudência ao não decretar medidas de restrição do consumo, ficando nos “bônus” que agora todos vão ganhar, porque não há mais água a consumir normalmente e o racionamento chega pelas torneiras secas.

Mas o governador de São Paulo não assume a sua responsabilidade. Em fevereiro deste ano Alckmin descartou a possibilidade de racionamento de água no estado. Já no início de outubro, sem poder negar a crise hídrica, ele continuou negando que haja um racionamento em São Paulo e promete que a água não vai acabar em novembro.

Aqueles que apoiam cegamente o governo tucano avaliam que falta de água é um capricho de São Pedro para atacar São Paulo. Realmente, há uma estiagem histórica. Não obstante, a Relatora da ONU, Catarina de Albuquerque, rebateu os defensores de Alckmin e criticou o governo pela crise hídrica. Para ela, faltas de água generalizadas podem ser evitadas com planejamento: “A seca obviamente tem a ver com as alterações climáticas e, às vezes, a gravidade das secas está fora do nosso controle. Mas há uma parte que é previsível. É por isso que, numa perspectiva dos direitos humanos, aquilo que digo para todos os governos é: ‘planejem, adotem medidas, preparem-se’”.

Enquanto isso, os veículos de comunicação insistentemente pedem à população para poupar água, apresentando dicas de economia e orientações para um uso racional da água. O governo do Estado também faz a sua campanha para economizar o precioso líquido, oferecendo bônus para economia de água. Pelas regras, quem economizar 5% de água, terá 5% de redução na conta, por exemplo, até o máximo de 30%.

As classes médias e baixas se empenham – voluntariamente ou forçosamente – a seguir as orientações de racionamento, tomando banhos de 5 minutos, escovando os dentes e lavando a louça com as torneiras fechadas, juntando bastante roupa suja antes de ligar a máquina de lavar ou usar o tanque, deixando de lavar os seus automóveis e até mesmo ficando 11 dias sem água nas torneiras, tendo que buscar ajuda em cidades vizinhas para lavar roupa e até tomar banho.

Enquanto isso, os ricos não abrem mão de suas piscinas, banheiras de hidromassagem, chafarizes e lagos ornamentais em coberturas, clubes e condomínios de luxo. Vale lembrar que o colunista Chico Felitti, da Folha de São Paulo, afirmou que o governador reeleito Geraldo Alckmin tem um apartamento de 125 metros quadrados no condomínio Torres do Morumbi, onde há cinco piscinas, uma para cada prédio. O jornalista afirma também que, segundo a administração do condomínio, os funcionários lavam o chão três vezes por semana, sendo que a água da limpeza é reaproveitada da chuva. O governo do Estado afirmou que o apartamento está alugado, pois o governador atualmente vive no Palácio dos Bandeirantes.

Como de costume, não faltaram as piadas, como o convite para a Pool Party – Festa nas piscinas do Geraldo Alckmin! Mas o luxuoso condomínio do governador não é uma exceção, como pode constatar qualquer pessoa que conheça os bairros nobres da capital paulista. Definitivamente, luta de classes não é um conceito antiquado.

É evidente que o racionamento não é para todos, o que denota a existência de relação de exploração entre essas diferentes classes, dominantes e dominadas. Como já observou o Gabriel Divan em seu artigo Solidariedade líquida, “a crise no abastecimento aflige com toques de recolher na secura os encanamentos de algumas áreas em detrimento de outras”, o que denota “falta de sintonia e solidariedade advinda da total falta de senso de comunidade (ou comunhão)”. Portanto, podemos desmitificar as campanhas para economia de água que se creem desinteressadas e democráticas. Você vai continuar se sacrificando para preservar o luxo de poucos ou vai exigir direitos iguais para todos?

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