Diário de um Imigrante em Dublin – Cap: 15 – O Roubo

0
192

Sim, há violência na Irlanda.

irlanda_hd_71920x1080

Acordo com um barulho. Mal abro os olhos e percebo que há uma agitação nos corredores e na sala. Antes mesmo de eu pegar o celular para ver que horas eram, o Aspira entra nervoso no quarto e fala “Breno, alguém entrou no apartamento. Fomos roubados.”.

 

Eu sabia que um dia Murphy iria aparecer, mas nunca imaginei que ele seria tão irônico e cruel. Ser roubado poucas horas depois de conseguir emprego e pouco antes do primeiro dia de trabalho é dose.

 

Levanto e vou pra sala ver o que aconteceu. Chatuba estava na rua tentando achar os ladrões enquanto o Aspira me explica o que houve. Era aproximadamente 5 da manhã quando ele foi levar seus amigos num ponto de ônibus que havia perto do nosso prédio. Como era início do verão, o céu já estava completamente azul. Durante os rápidos 10 minutos que ele ficou fora, alguém pulou a janela da sala, que estava aberta, e levou nossas coisas.

 

Nesse meio tempo Chatuba volta e diz que não viu ninguém suspeito nas redondezas. Enquanto o Aspira ligava pra polícia fomos percebendo o que os ladrões levaram e qual o tamanho do nosso prejuízo. E foi grande. Eles levaram três laptops, carteiras (com dinheiro e cartões de crédito), celulares, passaporte, relógio e as roupas que eu tinha comprado pra ir trabalhar.

 

O mais preocupante é que tínhamos a forte desconfiança de que quem fez isso estava vigiando a gente. Seria muita coincidência algum ladrão passar ali no exato momento que não tinha ninguém na sala e decidir pular rapidamente pra pegar as coisas, ainda mais já com o céu claro. O fato de ficarmos o dia todo na sala com as janelas abertas ajuda a reforçar essa hipótese. A impressão que ficou é que a pessoa sabia exatamente o que havia lá e onde estava, já que algumas dessas coisas não estavam em lugares tão visíveis.

Dublin18-8_large

 

Mal a polícia chegou, a Luz bate na nossa porta. Era hora de irmos pro hotel. Não preciso nem dizer que foi um primeiro dia de trabalho muito complicado. Estávamos tristes, chateados e foi um pouco difícil receber instruções e fazer um bom serviço, já que não conseguíamos pensar em outra coisa além do roubo. Sorte que a Luz estava com a gente e o pessoal do hotel se mostrou bem compreensivo.

 

Mais tarde quando voltamos pra casa, Raoni e Aspira contaram que a polícia ficou lá um tempo, fez algumas perguntas e pegou impressões digitais. Os policiais falaram para tomarmos mais cuidado com as janelas, já que morávamos em uma região com um certo número de viciados em drogas.

 

É muito estranho sair do Brasil e passar por uma situação dessa. Ainda mais na Irlanda, onde a polícia nem anda com arma. Dublin não é uma cidade 100% segura, mas a violência que acontece é bem pontual e em lugares específicos. Há vândalos, os famosos “knackers”, que implicam principalmente com imigrantes, negros e gays. As vezes eles ficam só nas ameaças e xingamentos, mas há casos de agressões, algumas bem sérias.

scumbags1

 

Os knackers em sua maioria ficam em lugares específicos da cidade, sendo assim, é só evitar passar à noite por esses locais. Eu sinceramente acredito que esse roubo que sofremos foi um acaso, e claro, um pouco de descuido nosso. Em dois anos de Irlanda foi a única vez que tive problema desse tipo. Sempre andei em Dublin, de dia ou de madrugada, com a maior tranquilidade do mundo. Apesar dos knackers, a violência lá está anos-luz atrás do que estamos acostumados no Brasil.

 

Nessas horas temos que tentar ver as coisas pelo lado positivo. Que bom que o roubo aconteceu justamente quando conseguimos emprego. Teríamos como recuperar o prejuízo mais rápido.

 

Há de se ressaltar o apoio irrestrito delas, as vizinhas. Elas nos ajudaram muito, muito mesmo, nos dias seguintes ao ocorrido. Seja emprestando computador (para resolvermos os pepinos ou passar o tempo), emprestando dinheiro, fazendo comidinhas, etc. Foi de uma amizade e solidariedade comovente para todos nós. Tenho certeza que Chatuba, Aspira e Raoni, como eu, são eternamente gratos por tudo que elas fizeram.

 

Os dias passaram a ser bem ocupados, já que além do emprego, tínhamos que resolver questões como cancelar e pedir novos cartões, fazer BOs, tentar comprar um novo computador (impossível ficar sem), pegar novo passaporte (quem teve o seu levado), etc.

 

Mas Murphy é um baita de um fdp. Não duvido que a polícia poderia ter achado quem nos roubou mas, justamente nessa época, apareceu uma senhora em Dublin que chamou toda a atenção para ela.

 

Cheers 

Comentários

Comentários