Diário de um Imigrante em Dublin – Cap: 12 – A Páscoa e os Espanhóis À toas

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A primeira Páscoa em Dublin e o encontro da irlandesa com os espanhóis.

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Eu conhecia poucas coisas da Irlanda antes de ir para lá: Guinness, Jameson, ser o país do U2, o fato de ser uma ex-colônia britânica e ter um inglês com um sotaque diferente e difícil. Agora o que eu mais ouvia falar era que a grande maioria das pessoas são católicas (motivo de rixas no passado com a Inglaterra) e que o irlandês gosta e muito de tomar umas. Foi engraçado ver esses dois últimos aspectos se encontrarem.

Estava chegando a nossa primeira Páscoa em Dublin, o que não significava nada para a gente. Porém, faltando pouco tempo para o feriado, descobrimos que tudo na cidade fecha durante alguns dias. TUDO. Provavelmente só os hospitais continuam funcionando… e olhe lá… Bom, a fase de economia continuava, então seria só mais um fim de semana sem sair de casa. Entretanto, precisávamos da nossa sagrada cerveja de sexta e sábado.

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Como bom brasileiros que somos deixamos para comprar as cervejas no último dia que o comércio estava aberto. E já perto da hora de fechar. Fomos para a Off Licence umas 21:40, sendo que fechava às 22:00hs. Chegando lá vi uma cena impagável: milhares de irlandeses fazendo estoques e mais estoques  de bebidas pro feriado. Era perceptível a preocupação e o cuidado deles para não faltar nada em casa durante os dias que a cidade parava. Nessas horas é inevitável sorrir, repetir os votos de paixão pela Irlanda e pensar “é isso ae pessoal, comer bacalhau pra que?”

Passou a Páscoa, mas não passava a rotina. Escola, casa e procura por emprego. A Keelings voltou a me chamar apenas mais uma vez, mas honestamente não fiquei muito triste de não ter que ir lá de novo. Normalmente quando estávamos todos em casa ficávamos na sala vendo TV, conversando ou mexendo no computador. E sempre com música tocando.

A sala era enorme e possuía duas grandes janelas que davam para a rua e ficavam sempre abertas. Isso era necessário já que a cozinha ficava no mesmo ambiente e usávamos muita fritura. Era inevitável subir aquele fumaceiro e precisávamos que ele saísse. Mas independente da fumaça ou do frio que estivesse fazendo, gostávamos de deixar as janelas abertas para ver o movimento.

Comida saudável e pouca fumaça na cozinha.
Comida saudável e pouca fumaça na cozinha.

Um dia eu e Raoni resolvemos sair. Havia muito tempo que não íamos para nenhum lugar e precisávamos fazer isso até para manter uma certa sanidade. Ainda havia cachaça que eu tinha trazido do Brasil. Colocamos uma boa quantidade numa dessas garrafinhas de whisky e fomos pra algum pub que não tivesse que pagar pra entrar. Conseguimos aproveitar a noite, ficar bêbados e não gastar muito.

Chegando em casa, vimos uma menina conversando (quase gritando) da janela de algum apartamento do terceiro andar do nosso prédio com alguém no portão. Mal chegamos no portão essa pessoa foi embora, mas a menina continuava na janela. Raoni falou alguma coisa e ela pediu para esperarmos que ela estava descendo para conversar com a gente.

Mesmo antes dela se apresentar e falar de onde era, já tínhamos percebido que ela era irlandesa. Quando falamos onde morávamos ela solta a seguinte frase: “Ahh, então vocês são os espanhóis à toas que moram ali e ficam o dia inteiro escutando música?”

A frase ficou ecoando pela minha cabeça: “Espanhóis à toas que ficam o dia inteiro escutando música…”

bandeiras da espanha 4

Tomara que, caso tivéssemos atrapalhado ou incomodado alguém com a música, essa pessoa tenha pensado que éramos argentinos.

Rimos, zoamos um pouco, mas depois explicamos que éramos brasileiros, o que sinceramente não sei se mudou muita coisa para ela. Ficamos conversando um pouco, mas logo fomos embora, já era 4 horas da manhã e a irlandesa tinha que trabalhar logo cedo. Ou estudar… não lembro.

No outro dia contamos para Chatuba e Leo o que tinha acontecido e claro, não resistimos, cada vez que alguém passava perto da janela falávamos em voz alta algumas palavras em espanhol (tentávamos pelo menos). De qualquer forma estávamos contentes por finalmente termos conhecido alguma vizinha, ainda mais sendo irlandesa. O que não sabíamos é que alguns dias depois conheceríamos de fato “As Vizinhas”.

Cheers

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