Diário de um Imigrante em Dublin – Cap: 10 – Keelings

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O começo da luta por emprego em uma Irlanda em crise.

swir10

Sábado, 19 de março de 2011. Dia seguinte ao dia seguinte do St. Patrick’s Day.

Ireland-v-England-Feb-28-2009-six-nations-rugby-6545490-725-480Finalmente estávamos nos sentindo melhor. Passamos o dia todo assistindo na TV partidas dos mais diferentes esportes. O jogo entre Irlanda X Inglaterra pelo Six Nations (campeonato de rugby que acontece anualmente com a participação das seleções da Irlanda, Inglaterra, Escócia, País de Gales, França e Itália) era o mais esperado. Estávamos vendo a partida, lembrando o que aconteceu na festa, quando algo inusitado aconteceu. Morávamos no térreo (a janela da sala dava diretamente pra rua) e de repente percebemos que havia duas velhinhas completamente alcoolizadas olhando, rindo e fazendo careta pra  gente. Foi algo tão inesperado que ficamos sem reação. As velhinhas ficaram zoando a gente por um tempo e foram embora. Todos compartilharam o mesmo pensamento: “que país maluco…”

Dublin ainda fervia no clima do feriado. É claro que nossa vontade era sair e repetir (com menos intensidade) o dia de quinta-feira. Porém, a razão falou mais alto e decidimos ficar em casa. A fase das farras de comemoração de chegada havia chegado ao fim. Era hora de economizar e procurar emprego.

Chegamos na Irlanda alguns meses depois de ter estourado a crise no país. É claro que isso nos preocupava muito porque trabalhar fazia parte do nosso objetivo (só desse jeito poderíamos ficar lá). Decidimos que o St. Patrick’s seria a última noitada enquanto estávamos desempregados. A ordem agora era economia total e muita correria atrás de algum emprego.

A época que fomos pra Irlanda (final de fevereiro/início de março) foi proposital. Pelo que pesquisamos antes de viajarmos, quanto mais próximo do verão mais fácil arrumar trabalho. Sendo assim, decidimos ir no final do inverno/início da primavera para que,na medida em que fôssemos nos habituando com a cidade e melhorando o inglês, as ofertas de emprego fossem aparecendo com mais e mais frequência.

Trabalho era disparado o assunto mais falado na minha escola. Como praticamente todos lá eram brasileiros e tinham acabado de chegar, a maioria vivia uma situação parecida. Foi bacana ver que a brasileirada se ajudava e sempre um indicava o outro na medida que as vagas iam surgindo.

5988613581_fdfe494a8c_mUma vez um colega me falou para eu ir numa agência de recrutamento e me cadastrar para trabalhar na Keelings (empresa que vendia frutas para toda a Irlanda) que eles costumavam chamar com frequência brasileiros. Fui, me cadastrei e esperei eles entrassem em contato comigo. Eu sabia que não era um emprego fixo, eu só trabalharia quando alguém faltasse ou a demanda por empregados aumentasse.

Um dia, pela manhã, recebi um torpedo avisando que eu deveria ir para a Keelings trabalhar no turno das 22hs. Liguei para esse colega e ele também tinha recebido o mesmo torpedo. Combinamos de ir juntos. A Via Crúcis iria começar.

Chegar na Keelings não era nada fácil. Para chegar às 22hs tive que sair de casa às 19hs. Só havia um ônibus que ia pra lá e do meu prédio até o ponto desse ônibus eram pelo menos 30 minutos andando. Após chegar no ponto e o veículo sair, eram no mínimo 50 minutos dentro dele quando finalmente ele nos deixava na última rua com casas numa certa região de Dublin. De lá eram mais 40 minutos a pé andando numa parte rural, deserta e em alguns pedaços sem iluminação, para enfim chegarmos na empresa. Conseguimos chegar vivos.

Depois de toda essa maratona, era hora de botar a mão na massa, que se resumia basicamente em separar frutas vindas de todas as partes do mundo (Brasil inclusive) em potes dos mais variados tamanhos. Oito horas de um trabalho mecânico e que foi se demonstrando no decorrer da noite extremamente cansativo. Ficar parado na mesma posição dói. Pra piorar apareceram bolhas no meu pé, devido à bota extremamente desconfortável que tive que usar.

As horas literalmente se arrastaram, quando finalmente chega 6 horas da manhã. Hora de ir embora e fazer novamente o longo trajeto. Chego  em casa por volta das 9 da manhã completamente exausto e com o pé fud***.

Vou para cama com o pensamento de que esse não era o “sonho Europeu” que eu havia planejado. Antes de dormir entro rapidamente na internet para checar o resultado do jogo do Flamengo e vejo que ele foi eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará.

“Eu mereço…”

Cheers

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