A Cultura da Superficialidade

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Uma reflexão sobre a (des)humanização do olhar em tempos de adestramento eletrônico para uma cultura do saber quase nada sobre quase tudo.

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A Cultura da Superficialidade

por Fabio Flores

A revolução tecnológica que vivemos nos últimos trinta anos nas tecnologias de comunicação, apresentou a sociedade uma avalanche de informações que nos condiciona a uma nova categoria de analfabetismo, expressa na cultura da superficialidade. A dimensão narcísica do neo-analfabeto o impede perceber a miopia de sua leitura do mundo. Orgasmático na ilusão de manusear um elevado volume de informações, não percebe que a horizontalidade de seu saber assassina seu potencial reflexivo e interventor na história pessoal e coletiva.

Nos últimos trinta anos a humanidade presenciou uma vertiginosa produção de conhecimento. Partindo do pressuposto que somos homo sapiens a cerca de 40.000 anos, verificaremos que nas últimas três décadas acumulamos mais informações que em todos os 39.970 anos anteriores. E o que fazemos com este cabedal de informações? Será que estas informações podem ter uma função mais útil, que a de cera para lustrar o verniz do pseudo-erudito?

A hiperconectividade leva o usuário das possibilidades da internet a acreditar na miragem da janela virtual, no mundo resumido nas poucas polegadas do monitor. Sem perceber que a rede virtual apenas congrega a elite incluída, o neo-analfabeto ao se deparar com a territorialidade das paisagens que não viu no Google Earth revela seu asco ao mundo dito real. A relação com o mundo de sua network é constituída no utilitarismo de afetividades simuladas, sua relação com o mundo que não possui arroba no sobrenome é construída digitalmente por imagens.

A sucessão de fatos torpes anestesia a indignação ética, e faz o olhar eletrônico (e viciado) do cidadão digital a tentar reparar com photoshop as cicatrizes de nossa exclusão social. A voz rouca das ruas não é compatível com o formato MP3, e por esta razão, não passa de um ruído agressivo a audição adestrada pelo discurso oficial, que constrói o eixo da normalidade com a cumplicidade dos que trocaram suas córneas pelo olhar das câmeras que tomaram para si o dom divino da onipresença.

A onipresença do tele-olhar dá a falsa sensação de proteção, vendendo a ilusão de que tudo está sob controle, e por estar sob controle, não se deve preocupar. O sucesso das redes de lanchonete fast food traduz metaforicamente a atual atitude do consumidor de informações. O fast food disponibiliza um alimento com uma consistência que não exija muita mastigação, e com a praticidade e a agilidade desejada por quem não tem tempo a “perder”, pois é melhor perder autonomia do que tempo nesta cultura da superficialidade.

Termino este texto resgatando a bela ironia do escritor francês Anatole France: “O pensamento é uma doença peculiar de certos indivíduos e que, a propagar-se, em breve acabaria com a espécie”.

Fabio Flores é geógrafo com especialização em Formação Docente e autor de mais de 200 artigos publicados em livros, revistas científicas, jornais e portais de internet.

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