Bolivarianismo: Tudo que você precisa saber para não pagar mico em discussões

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Na atualidade a palavra da moda nos debates sobre política nas redes sociais é o tal do Bolivarianismo. Você sabe o que é? Sabe quem foi Simon Bolívar? 8 tópicos resumidos e muito esclarecedores que vão lançar luz sobre os equívocos dos cientistas sociais formados pelo Facebook.

bolivarianismo
Artigo Thiago Lisboa

Hoje vou mostrar para vocês por que associar marxismo e bolivarianismo é algo equivocado e anacrônico. Vou fazer isso em 8 (oito) tópicos bem resumidos. Vamos lá amiguinhos?

1) Como ressaltou recentemente o professor David Borges, Simon Bolívar nasceu em 1783 e morreu em 1830 (quando Marx tinha 12 anos). Já Karl Marx nasceu em 1818 (quando Bolívar tinha 35 anos) e morreu em 1883. Marx soube quem foi Simon Bolívar, mas Bolívar nunca soube quem foi Karl Marx. Ou seja: não tinha como os escritos de Simon Bolívar ser marxista;

2) Bolívar viveu os tempos da “América espanhola” dos séculos XVIII e XIX, tempo e lugar marcado profundamente pelo domínio espanhol. Inspirando-se em clássicos do liberalismo europeu do século XVIII (como John Locke, Rousseau, Voltaire, etc.) Bolívar queria libertar a América do domínio espanhol. Bolívar era, portanto e em certo sentido, um liberalista clássico e não um socialista. Pelo tempo histórico que Bolívar viveu era impossível ele ser socialista.

3) O que consolidou — internacionalmente e de vez por todas — as ideias socialistas na história foi a obra panfletária “O Manifesto do Partido Comunista”, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels apenas em 1848 (isto é: dezoito anos após a morte de Bolívar). Vale lembrar aqui que Marx e Engels não escreveram o Manifesto Comunista inspirando-se em Simon Bolívar e na América Latina, mas para atender as demandas da classe trabalhadora europeia do século XIX. É por isso que o conteúdo filosófico, político e programático desse texto não tem nenhuma relação íntima com os escritos e ideais de Bolívar, pois a realidade europeia do século XIX era completamente diferente da realidade latino-americana da mesma época;

4) Em Janeiro de 1858, Karl Marx escreveu um artigo sobre Bolívar tecendo as seguintes considerações sobre o latino-americano: “A intenção real de Bolívar era unificar toda a América do Sul em uma república federal, cujo ditador seria ele mesmo. Enquanto dava este amplo vôo a seus sonhos de ligar meio mundo a seu nome, o poder efetivo lhe escapava rapidamente das mãos.” Perceba que Marx não nutria muita empatia à Bolívar, o que já demonstra certo distanciamento do alemão em relação ao latino-americano. (Veja artigo completo aqui:http://www.marxists.org/portugues/marx/1858/mes/bolivar.htm);

5) Marie Arana — biógrafa e uma das maiores estudiosas de Bolívar no mundo — disse recentemente em uma entrevista à Rede BBC que “ser bolivariano seria defender a educação, a liberdade, a ética, a equidade social e o esclarecimento do homem”. Disse ainda que: “ser bolivariano é ser unificador. Significa se livrar de qualquer estrutura opressora”. E de qual estrutura opressora ele estava falando? No caso era o domínio espanhol, que assolava toda América espanhola na época. (Veja entrevista com Marie Arana aqui:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141007_ted_bolivarianismo_rb);

6) A esquerda internacional, de um modo geral, não reconhece o bolivarianismo como base ou inspiração de seus objetivos e projetos políticos porque: a) um dos principais objetivos de Bolívar — a independência política dos países sul-americanos — já foi alcançada; e b) para a esquerda, de um modo geral — que estudou Bolívar — reconhece-se que ele estava mais para um “libertário” do que para socialista;

7) Quem se apropriou do ideário de Bolívar como fonte de inspiração e objetivos políticos e programáticos foi Hugo Chávez. Ao meu ver, Chaves foi muito oportunista ao se apropriar das ideias de Bolívar, visto que; a) Bolívar era venezuelano (nasceu em Caracas); b) Bolívar já era considerado herói nacional antes da era Chávez; c) tinha ideais que se encaixavam perfeitamente aos de Chávez; d) Chávez queria realizar muitos outros projetos nacionais de Bolívar que foram abortados pela elite venezuelana após a independência, como a equidade, a “ética social” e a educação “esclarecedora” e) talvez por um certo complexo pessoal, Chávez se achasse mesmo um novo Bolívar;

8) Vocês perceberam que eu usei e abusei a expressão “ideias de Bolívar” no lugar de “bolivarianismo”? Fiz isso intencionalmente, e por três motivos: primeiro, não se conhece nenhuma proposta de Bolívar de formar uma escola de pensamento baseada em seus ideais; segundo, não houve ao longo da história um grupo de peso que, baseados nas ideias de Bolívar, formaram uma escola de pensamento latino-americano e influenciaram gerações; e terceiro, não existiu nenhum movimento mundial baseado e que levou à cabo os ideais de Simon Bolívar (nem o chavismo faz isso; e, se faz, o faz de forma equivocada e não “pura”). Nesse sentido, usar indiscriminadamente o termo “bolivarianismo” — principalmente de forma pejorativa — demonstra descuidado, irresponsabilidade e, é claro, desconhecimento sobre o assunto.

Espero que os oito tópicos tenham jogado um pouco de luz ao assunto, sem pretensão de esgotá-lo, é claro. A mensagem principal que queria passar é essa: sejamos mais responsáveis, mais criteriosos e rigorosos com a história, com o pensamento e, principalmente, com nós mesmos amiguinhos. Cada vez que um articulador de revistas e blogs de direita usa o termo “bolivarianismo” para falar de socialismo, um historiador morre. Não façam igual a eles amiguinhos, por favor.

Por hoje é só! Até a próxima amiguinhos!!!

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