“O número 666 chama-se Aleister Crowley”, canta Raul Seixas em “Sociedade Alternativa”. O próprio escritor inglês se autodenominava 666, que no Apocalipse bíblico se refere ao número da Besta. A alcunha é uma provocação à moral e aos bons costumes ocidentais, pois o Diabo é visto como forma de representação oposta às religiões tradicionais, com suas censuras e restrições espirituais, intelectuais, emocionais e sexuais. Entretanto, Crowley não tinha relação com satanismo ou magia negra. O número 666, no diagrama cabalístico da Árvore da Vida, corresponde ao número mágico do sol. Nas provocativas palavras do mago: “Isso significa apenas luz do Sol. Você pode me chamar de Pequena Luz do Sol”.
Nesse discurso holístico, que busca ultrapassar toda forma de dualismo, bem e mal aparecem abraçados num romance astral, assim como Deus e o Diabo. A dualidade bem X mal se constitui como legitimação de estruturas concretas de poder e dominação da política desgastada do Velho Aeon. A propósito Raul Seixas diz o seguinte: “Até que o Diabo é uma figura simpática, porque eu acho que o Diabo e Deus, hoje em dia, estão no céu tomando cálices e cálices de vinho e curtindo a cara do Bem e do Mal da gente, morrendo de rir da babaquice da gente, sabe?”
Nos anos 1960 e 1970, como sabemos, Aleister Crowley despertou muito interesse entre artistas, tornando-se guru da contracultura e do rock. Esse estilo musical,que desde suas origens foi associado, de uma forma ou de outra, ao ocultismo e ao satanismo, tem sido frequentemente acusado de incitar a rebeldia e despertar, nos jovens, sentimentos transgressores.
O rock em geral, apesar do aspecto subversivo, foi cooptado pela indústria cultural, que fatura em cima do seu sucesso comercial. No Brasil, tornou-se o carro-chefe da indústria fonográfica nos anos 1980, reforçando a lógica do capitalismo de consumo e suas finalidades conservadoras.
A indústria cultural percebeu que o rock tem apelo para a juventude e iniciou o processo de assimilação e domesticação dos rebeldes, convertidos então em astros. Na década de 1970 o rock alcançou o patamar de grande negócio no mercado internacional, mas o modelo de sucesso comercial já existia desde os anos 1950, quando foi lançado por Elvis Presley.
O rock se caracteriza muito mais por um protesto contra os valores do Velho Aeon do que realmente por um movimento com propostas efetivas. Podemos dizer que o rock tenta expurgar os antigos valores, exorcizando os fantasmas, rompendo os grilhões,sempre em busca de alternativas para viver dentro das cercas embandeiradas do Velho Aeon.
A ironia é que no contexto do capitalismo tardio até mesmo as ideias mais subversivas precisam dos meios disponíveis no mercado para se pronunciar. Ainda resta saber se existem meios através dos quais as utopias possam vir a ser reinseridas nos interstícios da sociedade. E os thelemitas acreditam tanto no poder da utopia que lançaram a campanha de Aleister Crowley para presidente dos Estados Unidos.
No próximo sábado continuamos a conversação, com foco na campanha presidencial do mago. Até lá, se você quiser saber mais sobre a obra de Crowley e sua influência na cultura contemporânea, em especial na obra de Raul Seixas, leia o meu livro Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo. A obra pode ser adquirida com a editora Multifoco. Ou você pode fazer o download gratuito da dissertação de mestrado que deu origem ao livro no Portal Domínio Público.
PS: Sigam-me os bons! @Vitor_Cei












Curti o teu texto, Vitor.
Obrigado, João. Um abraço!