25 anos sem Raul Seixas

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Ensaio em homenagem aos 25 anos da morte de Raul Seixas, o maluco beleza. 

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Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP A Panela do Diabo e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, Raul Seixas faleceu de parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo.

O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens. Mais de 5 mil pessoas passaram a madrugada despedindo-se do artista, chorando, cantando suas canções, entoando coros e prestando diversas homenagens, transformando a ocasião solene, que poderia ter passado despercebida, em um espetáculo midiático. Por pressão dos fãs, que queriam uma homenagem digna de herói nacional, o corpo de Raul foi levado pelo carro do Corpo de Bombeiros até o Aeroporto de Congonhas, de onde foi transportado para Salvador.

A comoção durante o velório mostrou que o pai do rock brasileiro não tem simplesmente fãs, mas seguidores. A fama levou ao fascínio, convertendo-o em guru da Sociedade Alternativa, profeta, messias, redentor ou fundador de religião. Tal como os santos-mártires, seu sofrimento nos últimos anos de vida e sua morte repentina geraram a idolatria póstuma. Assim, há um caráter de “culto” na publicidade em torno do nome de Seixas, o que gerou a proliferação de dezenas de covers, publicações e fã-clubes espalhados pelo Brasil.

Quando o maluco beleza morreu, seus fãs tornaram-se órfãos de utopia. Foi-se o messias, horizonte desde onde se articulavam os ideais que prometiam uma Sociedade Alternativa. Muitos ignoram que o Raul execrava a idolatria e exortava insistentemente ao individualismo, instigando seus interlocutores a abraçarem sozinhos os próprios caminhos. Se assim procedia é porque sabia que, enquanto o venerassem, negariam a própria autonomia. Lúcido, ele não se identificava com um sábio, santo, profeta ou redentor do mundo. Ao mesmo tempo, convidava os fãs a questionarem-se a respeito de si mesmos e de suas vidas.

O individualismo exacerbado não significa que Raul tenha abandonado qualquer compromisso com a coletividade. A transformação social poderia advir apenas da liberdade individual, pois se “cada um de nós é um universo”, como ele canta em Meu Amigo Pedro, é responsabilidade de todo indivíduo dar sentido à própria vida. A única fonte de orientação espiritual confiável em todo o universo seríamos nós mesmos.

O grande desafio de todos aqueles que, seguindo a proposta de Raul, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade, já dizia o compositor na canção Prelúdio. Essa composição, que serve como prelúdio para a obra de Raul Seixas como um todo, convoca os indivíduos a se libertarem por seus próprios meios, sem a tutela de qualquer liderança. O autor apostava na capacidade humana de autolibertação, pois, como ele defendia, a decisão de tomar alguma atitude positiva cabe a cada um de nós.

25 anos após a sua morte, a obra de Raul Seixas permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. Esse é o seu legado para as gerações que se seguem, conforme o próprio compositor afirmou na canção-testamento Geração da Luz:

Eu já ultrapassei a barreira do som
Fiz o que pude às vezes fora do tom
Mas a semente que eu ajudei a plantar já nasceu!!!

Eu vou, eu vou m’embora apostando em vocês
Meu testamento deixo minha lucidez
Vocês vão ter um mundo bem melhor que o meu!!!

Quando algum profeta vier lhe contar
Que o nosso sol tá prestes a se apagar
Mesmo que pareça que não há mais lugar
Vocês inda tem
Vocês inda tem
A velocidade da luz pra alcançar

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